segunda-feira, 16 de outubro de 2017

E agora?

Ontem diziam-me que o país estava a arder e eu ignorei deliberadamente tudo o que era noticia, afastei-me das televisões, não abri o facebook, simplesmente não queria saber.
Antigamente quando via um incêndio na televisão ficava com os olhos cheios de lágrimas e o coração apertadinho a imaginar o que aquelas pessoas estavam a passar, mas agora eu sei o que aquelas pessoas estão a passar, agora eu sei o significado real da palavra impotência, agora eu sei o que é estar rodeada por chamas e então não quis ver, não quis saber, não quis sofrer... Mas à noite quando abri finalmente o facebook e fui inundada com todos aqueles vídeos e fotos e com os relatos desesperados de ajuda e hoje ao ver as imagens de um país sem ponta por onde se pegue, que arde completamente descontrolado, ao ver o número de mortos continuar a subir sem previsão de que pare.. Só consigo perguntar E AGORA?

Será que agora já chega para abrirem os olhos e começarem a levar a reforma florestal a sério?
Será que agora já é hora para pararem com as guerras politicas e unirem-se em prol de um país?
Será que agora começam a perceber que para se comandar uma situação desta natureza é preciso ter competências e não ser amigo de a, b ou c?

Não quero a cabeça do primeiro ministro, do presidente da republica ou da ministra da administração interna.
Não quero que nenhum deles se demita das suas funções, porque isso é brincar com o dinheiro dos portugueses, com a vida dos portugueses, com o país dos portugueses.
O que eu quero é que comecem a fazer o trabalho para que foram eleitos.

O que eu quero é que o presidente da republica pare de andar a distribuir beijinhos e abracinhos e assuma o seu papel como chefe maior das forças armadas e me explique porque estão os aviões portugueses parados quando podiam ser equipados para voar, porque estão os militares nos quartéis quando podiam estar a ajudar a população a apagar fogos.
Estamos com calamidade publica declarada, os bombeiros pedem às populações que saiam para o terreno para combater porque não há meios que cheguem e temos nós os quartéis cheios de militares que podiam estar a combater, a limpar mato, a fazer rescaldo permitindo que os bombeiros fossem mobilizados para frentes activas e nada disto acontece porquê? Porque não tem formação? Eu também não e apaguei fogo, as pessoas que estão a combater agora ao lado dos bombeiros também não e estão lá. Então explique-me senhor presidente da republica porque não foram os militares mobilizados para o combate e para a ajuda à população?

O que eu quero é que o primeiro ministro leve uma discussão a sério à assembleia sobre as causas dos incêndios, o que eu quero é que se investigue sem dó nem piedade o motivo da maioria destes incêndios, porque meus amigos, não ficámos de repente com mais "maluquinhos" do que tinhamos o ano passado, não foi só agora que a D. Joaquina achou engraçado os bombeiros andarem perto dela, nem foi só agora que o Sr. João quis ser o salvador da aldeia e pegar fogo para depois o apagar, nem foi só agora que o Sr. Manuel foi pago para atear um fogo que nem ele sabe o motivo. (os nomes são fictícios).
É preciso investigar cada um destes fogos, é preciso não apenas prender o incendiário mas saber o que o levou a cometer o crime, e é preciso fazer isto bem, porque como eu disse o número de "maluquinhos" não aumentou, se calhar aumentou foi o número de pagamentos aos "maluquinhos."
E são precisas penas exemplares para estes casos, uma pessoa que pega fogo não está a cometer um crime, está a cometer vários, crimes que vão desde o atentado ao património público até a um homicídio culposo. Como é que esta gente é julgada e me fica em pena suspensa? Não se pode destruir vidas e ficar impune, pegar um fogo não é o mesmo que roubar um iogurte num supermercado, estamos a falar de destruições com impactos dramáticos em vidas. É obrigatório que se mude a moldura penal destes crimes, é obrigatório que se façam investigações e se acabam com os benefícios de quem lucra com os incêndios sem medo de ofender o amigo do primo do vizinho.
O que eu quero é que o Primeiro Ministro comece a mandar limpar as florestas que pertencem ao estado e que comece a mandar cumprir a lei que obriga os proprietários a limpar os terrenos, porque esta lei de multas não muda porra nenhuma, para a multa ser passada já é preciso quase um milagre e depois a pessoa não paga, a multa apodrece na gaveta e ninguém faz nada, ninguém se mexe para que a pessoa cumpra os seus deveres para com o país. Limpar um terreno é um dever para com o país e tem de ser tratado como tal, mas primeiro o estado tem de dar o exemplo, porque senão perde a autoridade para falar do que quer que seja.

E o que eu quero é que a ministra da administração interna perceba que é preciso mudar tudo, é preciso que a floresta passe a ser uma prioridade no nosso país.
É preciso que ela fique limpa o ano inteiro - metam presos a limpar, nenhum vai morrer por limpar mata e pinhal.
É preciso que se vigie a floresta e se não querem pagar a guardas florestais, instalem câmeras 360º graus nas florestas, montem centros de comando que controlem florestas, montem postos de detecção de fumo que lancem alertas, não podemos deixar as nossas florestas abandonadas, não podemos deixá-las à mercê de criminosos.
É preciso que as câmaras municipais tenham planos elaborados de evacuação das suas aldeias, que os presidentes das mesmas sabem quantos habitantes há em cada aldeia, quais as aldeias mais idosas a evacuar primeiro, quais as estradas que mais facilmente serão atingidas pelo fogo e que precisam de ser imediatamente cortadas, quais os sítios mais seguros para onde evacuar a população.
Isto é um trabalho urgente e que cada câmara tem obrigação de fazer, eles tem obrigação de conhecer a sua zona e as suas gentes.
É urgente que a população seja formada para saber o que fazer em caso de incêndio, como reagir, como evacuar em segurança, quais os caminhos mais seguros para sair de determinada aldeia.
Isto não é nada ilusório e isto não é nada difícil de se conseguir, estamos a falar do interior onde existem aldeias com 10 pessoas. Nem toda a gente consegue manter a racionalidade nestas situações, ter um plano de fuga evitaria muitas desgraças.
É preciso que se instalem bocas de incêndio nas aldeias e na própria floresta, é inadmissível que os bombeiros tenham que abandonar aldeias para voltarem a encher os carros, é inadmissível que se coloquem a si mesmos em risco para procurarem água, não pode de todo acontecer.
É necessário que se instalem bombas nas aldeias que permitam que as mesmas tenham água após a electricidade falhar, é algo caro de por em prática, é. Mas com incêndios tão dispersos, onde não há meios que acudam a todos como se espera que uma população salve o que é seu se não tiverem água?
É um sentimento de impotência autêntica ver as coisas a arder e não ter água para salvar nada.
É necessário que sejam abertos caminhos pela floresta que permitam acessos, em muitas zonas tudo o que se pode fazer é deixar arder porque não há acessos e porque como não há onde abastecer os carros não se pode desperdiçar a água em floresta quando ela será precisa para defender casas.
E cara ministra da administração interna é urgente demitir todo o comando da protecção civil, é urgente tirar essas pessoas e construir uma equipa que realmente perceba de florestas, de incêndios, de protecção. Alguém que conheça o país e saiba o que fazer em momentos de crise.
A incompetência deste comando fica provado vez após vez, com estradas que não são mandadas cortar, com aldeias que ficam por evacuar, com aviões que não descolam porque estão a 1.7km a mais do que a distância máxima permitida.
Precisamos de pessoas competentes na área, não me importa se quem lá está é um fantástico amigo do ex não sei de que ministério, eu quero, o país quer, pessoas que saibam agir, pessoas que percebam a dimensão do papel que tem em mãos, pessoas que percebam de incêndios, pessoas que consigam ler as rotas do vento e posicionar correctamente aqueles homens de forma a combater os incêndios numa fase inicial e não quando a catástrofe já está instalada.

E podia dizer mais, podia dizer muito mais, por todos os que já morreram, por todos os que virão a morrer por incompetência e falta de interesse em resolver de forma eficaz tudo isto.
Mas por enquanto pergunto: E AGORA? Vamos continuar a enfiar a cabeça na areia, ou vamos começar a agir, vai demorar anos a mudar tudo? Vai. Mas temos de começar AGORA. para que não continuemos a chorar a vida dos nossos, para que não continuemos de coração nas mãos em todos os verões, para que "amanhã" ainda exista floresta.
A hora é agora e não daqui a mais 4 meses quando existirem mais mortos, não daqui a um ano quando os incêndios recomeçarem.

Façam aquilo para que foram eleitos.


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