segunda-feira, 17 de julho de 2017

A ajuda chegou ou não?

Nesta última semana uma das coisas que mais ouvi e li sobre Pedrogão foi sobre se a ajuda estaria ou não a chegar à população, ouvi tanta coisa que até eu que já tinha estado no terreno comecei a duvidar do que estava realmente a ser feito.

Como quem me lê sabe eu tenho casa nos Troviscais - Pedrogão e estava lá no dia do incêndio, (não me vou alongar muito sobre o inferno que foi e o que perdi porque já escrevi sobre isso aqui ), portanto sei o horror que foi e como a população foi afectada.

A primeira vez que voltei a Pedrogão foi 15 dias depois do incêndio e posso-vos dizer que embora saiba sempre o que vou encontrar, ainda hoje cada vez que entro no concelho, sinto a alma partir-se ao ver aquela extensão infindável de terra queimada, é absolutamente desolador passear pela floresta e ver as consequências do incêndio, não me consigo habituar aquela paisagem cinzenta...

Mas não é sobre isto que quero falar, na primeira vez que voltei levava o carro carregado de coisas que poderiam fazer falta a outras pessoas, levava inclusive um cabaz enorme de coisas doadas por uma amiga. Quando cheguei quis saber quem seriam as pessoas a quem as coisas fariam mais falta, quem precisava mais, quem teria perdido mais e a verdade é que a informação que tive - embora existam histórias obviamente dramáticas de quem perdeu tudo - foi que na minha aldeia (e atenção porque durante todo o texto falarei sobre o que se passa na minha aldeia) as coisas estavam controladas e as pessoas estavam a ser ajudadas.

A ajuda era a ideal? Não. Tinha sido feito um inventariado de quem precisava do quê? Não. Mas a ajuda estava lá. A informação que tive na altura foi de que quem precisasse se podia deslocar à associação para ir buscar as coisas que lhe fizessem falta. Não seria a minha forma de ajudar e não tive informação na altura de que a associação se deslocasse a casa das pessoas para entregar bens, pelo que me diziam a ajuda existia mas era desorganizada. Ninguém estava a passar fome, a dormir na rua ou com falta de bens essenciais.
Distribui o que levei pelas pessoas que achei que precisavam.

No dia 8 de Julho vi um video onde aparecia uma pessoa da minha aldeia (Troviscais Fundeiros) que supostamente teria perdido a horta e que por isso precisava de legumes, de água, de alimentos para o cão e o gato, entre outras coisas e eu fiquei chateada, confesso que fiquei muito chateada porque não era suposto aquilo acontecer, caramba aquela mulher mora perto de mim e ninguém me tinha dito que ela precisava de algo? A associação não tinha percebido que aquela mulher se encontrava com dificuldades?
Liguei para a aldeia e a reacção que tive foi de surpresa do outro lado, porque a descrição que eu estava a fazer das necessidades daquela pessoa não eram as mesmas que quem lá estava via. Mas ok, porque no meio de tanta tragédia as pessoas às vezes perdem-se um bocadinho a tratar de tanta coisa que não tem tempo de ver as necessidades dos outros. Acreditei no video que vi, acreditei tanto que me envolvi numa discussão não muito bonita com a associação da aldeia.

No mesmo dia vi um outro video também lá na aldeia onde se pedia água e onde uma outra senhora dizia que não tinha perdido nada mas que como a reforma era pequena podiam lá deixar coisas. Confesso que não entendi, não entendi como é que alguém que não perdeu nada pedia coisas e não entendi porque é que se pedia água. Eu tinha estado a beber água da torneira quando lá tinha estado. Estaria agora a água imprópria para consumo?

Marquei um encontro com pessoas da associação para o dia 15 de Julho, que era quando eu voltaria a estar no terreno, estava zangada com as supostas faltas de ajuda, com a suposta ineficácia deles e com as supostas necessidades que as pessoas estavam a passar quando existe tanta ajuda disponível em Pedrogão.

No sábado lá estava eu e tenho-vos a dizer que a realidade que vi não tem NADA a ver com a realidade que foi relatada nos vídeos, e atenção a culpa não é de quem gravou o video, a culpa não é de quem dá o seu tempo para ajudar, a culpa é das pessoas que se aproveitam da boa vontade e do bom coração dos outros. Mas já lá vamos.

Quando cheguei à associação foi-me contado o outro lado da história. E o outro lado mostra-nos como as coisas não são bonitas, vi provas de que por exemplo a senhora que no video diz que nunca lá tinha ido ninguém dar nada, tinha alguns dias antes recebido duas caixas cheias de produtos, vi provas de pessoas que a mim me disseram que nunca tinham recebido nada e que afinal já tinham ido buscar produtos mais do que uma vez, vi pessoas que não perderam nada irem buscar alimentos à associação, pessoas que já lá tinham estado no dia anterior, vi um senhor que não perdeu nada ficar chateado porque não havia meias para ele...
Fui ver os terrenos que arderam, conhecer as histórias de quem perdeu tudo, conhecer as histórias de quem mesmo no meio da sua tragédia e das suas perdas, abdica do seu tempo para distribuir ajuda pelos outros.

Na minha aldeia a ajuda só vai à porta de quem não se consegue deslocar, porque quem se consegue deslocar pode perfeitamente ir buscar as coisas que precisa, elas estão lá e qualquer pessoa as pode levar - inclusive quem não perdeu nada porque são essas as ordens que eles tem.
Além disso não tem lógica nenhuma que a ajuda vá à porta de quem não perdeu nada, seria ridículo e é ainda mais ridículo que as pessoas que não perderam nada se chateiem por não terem ajuda (mas chateiam-se).

Posso-vos dizer que na minha aldeia há quem se gabe de ter comida para os próximos 5 anos, leram bem, CINCO anos. Pessoas que foram a todos os postos de doação de alimentos encherem os sacos e que nem sequer perderam nada, nada, nem uma couve.
Há pessoas que não perderam nada a fazer mais alarido do que eu que tenho o quintal todo queimado e que sei lá quando vou ter dinheiro para voltar a cercar o mesmo.

Fui visitar a senhora que aparece no video a quem supostamente ardera a horta e posso-vos garantir que ela está lá verdinha, ardeu-lhe uma fileira da horta (uma fileira de uma horta enorme) e umas vinhas, nada que tire o sustento daquela senhora, nada que lhe vá tirar rendimentos.
Mesmo depois de ver o que lhe tinha ardido fiz-me de desentendida e perguntei-lhe se ainda precisava de alguma coisa (isto sabendo eu que ela já recebeu a visita de imensas pessoas, que nunca recusou nenhuma das doações e que nunca reencaminhou as pessoas para casa de outras pessoas que precisam mais do que ela), sabem o que me disse? Que precisava de comida para as galinhas porque desde o incêndio já tinha comprado 3 vezes comida para as galinhas. Confesso que fiquei feita parva a olhar para ela, caramba, antes do incêndio ela não comprava comida para as galinhas? Então porque é que agora não havia de comprar? Porque é que agora as pessoas teriam obrigação de lhe doar comida para as galinhas se ela não perdeu nada que lhe afecte os rendimentos?
A senhora tem mais comida para o cão e para o gato de que provavelmente algumas protectoras de animais que alimentam colónias inteiras,  mas se forem lá doar coisas ela vai continuar a aceitar em vez de vos reencaminhar para quem precisa mais do que ela, isto é normal?
Não acho.

Quanto à agua tenho visto vários pedidos de todo o lado a pedirem água, e posso-vos garantir que a água da torneira está potável e com um sabor normalíssimo, o que acontece é que estas pessoas estão habituadas a irem buscar água às fontes (já que é de borla) e a água das fontes realmente corre o risco de se tornar imprópria para consumo de um dia para outro. Mas desde que as pessoas tenham água da rede nunca ficarão sem água para consumo.
(Em compensação há sítios onde mora gente sem água canalizada e que essas sim precisam de garrafas de água)

Depois de ter visto as coisas pela aldeia fui directamente a Pedrogão ver se realmente a ajuda está ou não está acessível a quem precisa, dirigi-me à Santa Casa que é onde é feita a distribuição da alimentação, identifiquei-me, dei alguns dados que me pediram e sai de lá com um cabaz de alimentos para mais de um mês. Não me perguntaram o que me ardeu, não precisei de justificar porque estava a pedir alimentos, nada. Cheguei, dei os dados que me pediram e trouxe a comida. (que depois distribui)
Portanto a ajuda está lá, e está lá disponível para quem a quiser ir buscar. É complicado para quem tem dificuldade em deslocar-se? Provavelmente sim. Mas tendo em conta que as pessoas com dificuldades de mobilidade estão supostamente sinalizadas e recebem visitas com os alimentos, todos os outros podem e devem ir buscar a ajuda que precisarem.
Não fui às tendas com outro tipo de bens que não os alimentares, porque não preciso de roupa e não teria a quem distribuir portanto, seria um desperdício, não sei portanto como funciona a doação de roupa mas a de alimentação está aberta a quem precisar.

Sei que vou chocar agora com o que vou dizer mas a verdade é que existe ajuda a mais, as pessoas que não perderam NADA, tem as casas cheias de comida, os supermercados estão completamente às moscas porque as pessoas não precisam de fazer compras já que mesmo quem não perdeu nada pode ir buscar comida de borla - desafio-vos a irem ao minipreço de Pedrogão, está vazio.
E as pessoas estão a acomodar-se a isso, gastar dinheiro para quê se podemos ter de borla?

Peço por isso alguns cuidados aos voluntários que queiram ir ao terreno.
 1 - Passem nos sítios competentes para se identificarem e quando chegarem à casa de alguém identifiquem-se, as pessoas vão habituar-se a abrir a porta a estranhos e daqui a uns meses correm o risco de serem assaltadas.
2 - Se fizerem pedidos para doações tentem dar o mínimo de dados possíveis sobre a localização das pessoas, há pessoas que moram completamente isoladas e que daqui a uns meses serão uns petiscos para os ladrões - e quem anda no terreno sabe que com meia dúzia de minutos se sabe a vida inteira destas pessoas.
2 - Perguntem SEMPRE o que ardeu e o que cada pessoa perdeu, vocês podem estar a deixar a vossa ajuda a quem não perdeu nada enquanto na casa do lado pode estar alguém que perdeu tudo o que tinha.
3 - Quem passar pelos Troviscais em vez de ir a casa de alguém porque viu em algum lado, dirija-se à associação, lá eles informam quais são as pessoas que mais precisam de ajuda (arderam 9 habitações, há pessoas que ficaram sem nada, ainda há gente internada em Coimbra e portanto há casos mais tristes do que aqueles que já vimos) e caso seja necessário levam as pessoas até vocês para que lhes possam entregar as doações em mãos.
Se a associação estiver fechada os telefones dos responsáveis estão na porta.

4 - A melhor ajuda que podem dar no terreno é na reconstrução, por exemplo ajudando a replantar toda uma horta, a limpar todo um quintal. A reconstruir um curral. Mais do que dar o peixe é importante dar as canas para pescar, se alguém perdeu a horta de onde tirava o sustento ajudem-na a ter a horta de volta, vejam de onde vinha o sustento da pessoa e tentem ajuda-la a recuperar esse sustento.
5 - Antes de divulgarem um caso investiguem sempre se a situação é como vos estão a contar, infelizmente posso-vos garantir que existe muita gente a aproveitar-se da boa vontade alheia. Como vos disse vi provas das pessoas que já tinham recebido ajuda e que quando eu perguntava garantiam a pés juntos que não tinham recebido nada e precisavam de tudo.
6 - Se identificarem casos com necessidades realmente urgentes passem nos órgãos competentes e vejam se a situação está sinalizada e a ajuda está em curso, posso-vos dizer que há gente com 3 máquinas de lavar novas (e não, a pessoa não foi dar as duas que tem a mais a outras pessoas que precisem) e portanto ao mobilizarem ajuda para determinada situação podem estar a contribuir para este tipo de situações.

Se os voluntários e os órgãos competentes se unirem o trabalho é mais rápido, mais eficaz e a ajuda chegará a quem realmente precisa.
Não deixem de ajudar mas façam-no de forma organizada e com a noção de que nem tudo o que vos dizem é infelizmente verdade, e isto eu sei por experiência própria. O facto de acharmos que são todos honestos como nós não quer dizer que realmente o sejam. Investiguem.

E por fim OBRIGADA :)






4 comentários:

  1. Estive uns dias na minha casa da Salaborda onde felizmente a aldeia em si nada sofreu e sim das pessoas que falei constatei que a ajuda há e que há pessoas a aproveitar—se mas que a recuperação destes concelhos vai demorar.

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  2. Se sabe disso denuncie as pessoas e façam devolver o que já levaram a mais. chame a polícia chame a televisão. não tenha medo :)

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    1. Estas pessoas foram denunciadas e como tal já estão sinalizadas e não conseguem ir buscar mais nada. Mas não se pode obrigar ninguém a devolver nada, não se pode entrar na casa das pessoas e exigir as coisas. As ordens são para ajudar sem fazer muitas perguntas e por isso vão continuar a existir pessoas a aproveitar-se da situação. Umas fazem-no pela calada e outros são menos espertos e gabam-se da sua própria falta de carácter... Infelizmente existem vários casos destes...

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  3. É triste haverem pessoas a aproveitarem-se da boa vontade alheia. Infelizmente, vão haver sempre pessoas assim, mas na tentativa de ajudarmos quem precisa, vamos sempre cruzar-nos com pessoas dessas. Gostei do post, bastante informativo e esclarecedor (;

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