quarta-feira, 28 de junho de 2017

O que falhou? - O inferno das chamas #2

Pensei muito se escrevia ou não este texto, se dizia aquilo que sinto ou calava as criticas que tanto passam pela cabeça de quem lá esteve mas ao ver os telejornais dos últimos dias, ao ver como o assunto vai caindo no esquecimento - e como é isso que o governo pretende - decidi que tinha sim de escrever o que penso, que tinha sim de falar do que correu mal.

Talvez algumas coisas não sejam como penso que são e nesse caso sintam-se à vontade para me corrigirem, mas isto.. isto é o que não podemos calar, não podemos deixar que torne a acontecer e acreditem, se não exigirmos mudanças, isto voltará a acontecer, porque acontece sempre, ano após ano..
Falhou quase tudo neste incêndio...

Comecemos:
Segundo as autoridades o fogo começou entre as 14h e as 15h. Nesta altura as temperaturas rondavam à vontade os 40º graus e dizem eles que o fogo começou em floresta de difícil acesso. Expliquem-me então - como se eu tivesse 5 anos - como é que se desvaloriza um fogo que começa em floresta num dia anormalmente quente?
Expliquem-me porque raio os aviões demoraram mais de duas horas a levantar (e perdoem-me mas eu as 17h /18h ou estava muito concentrada a apagar o fogo no meu quintal ou estava surda porque não ouvi aviões nenhuns no ar a esta hora).
Diz-se que os aviões não levantam imediatamente porque são caros e então se espera para ver se serão realmente necessários, a isto apetece-me soltar um valente Foda-se (e olhem que eu nem asneiras), esperamos para ver se o fogo vai queimar muita ou pouca floresta antes de mandar para lá um avião? Esperamos para ver se vai ameaçar casas antes de mandar para lá um avião? Esperamos para ver se estamos ou não a colocar os nossos bombeiros em risco antes de se mandar um avião?
Claro que a versão oficial não é esta, claro que nunca ouviremos um governante dizer que o avião não chega imediatamente a qualquer incêndio florestal porque é caro, a versão oficial é sempre de que o avião não tinha tecto para voar e fazer as descargas em segurança.
Suponho eu que isto se deva ao calor e ao fumo de um incêndio, mas pergunto eu, na minha inocência. Nunca ninguém se lembrou de colocar os aviões que não tem tecto para voar directamente em cima do fogo a molhar a floresta circundante? Nunca ninguém se lembrou que floresta molhada arde mais devagar e dá mais tempo aos bombeiros de apagar incêndios? Nunca ninguém se lembrou que mesmo em dias de calor as folhas retém humidade e que é mais fácil apagar fogo rasteiro do que fogo em copas de árvores? Nunca ninguém se lembrou que fogo rasteiro não propaga fagulhas a uma distância tão grande como fogo alto? Pergunto eu na minha inocência, porque é que os aviões que não podiam voar sobre o incêndio de Pedrogão não molharam a floresta à volta? Porque é que neste país se chora sempre sobre o leite derramado em vez de se evitar que ele se derrame?

Mas vamos seguir, vamos supor que não havia nada que os aviões pudessem ter feito - e havia, todos lemos em cima que havia. Alguém me explica porque é que não foram dadas ordens para que a estrada que liga Castanheira de Pêra a Pedrogão fosse cortada? Como é que se deixa aberta uma estrada que faz com que as pessoas saiam de zona segura para entrarem em zona perigosa? Como é que não se desvia o tráfego para evitar que as pessoas entrem numa povoação que está a ser consumida pelas chamas?
Mais, há gente que afirma que saiu da praia das Rocas às 18h sem ter noção da gravidade do incêndio em Pedrogão. Ninguém se lembrou de contactar a praia e pedir que as pessoas fossem informadas que não se deveriam dirigir para Pedrogão?
Além disso como se deixa aberta uma estrada completamente ladeada de árvores?
Como é que só havia GNR num dos lados da estrada? Como é que os GNR's que estão no fim da estrada vão saber o que se passa no inicio da mesma? Como é que vão ter noção se a estrada está ou não segura se só vem o fim dela e não sabem se lá no inicio a mesma já arde ou não??
Atenção, não estou a culpar os pobres dos GNR que estavam no local até porque o mais provável é que nem conhecessem o terreno, que tenham sido enviados para ali vindos de alguma terra vizinha e não tivessem o mínimo de conhecimento sobre aquelas estradas. E sendo assim como podiam eles adivinhar que aquela estrada se transformaria num túnel de fumo e calor? Não podiam, mas no posto de comando alguém tinha obrigação de saber, alguém devia saber quais são as estradas que tem de ser imediatamente cortadas, quais são as aldeias que tem de ser imediatamente evacuadas, quais são os pontos em que se tem de actuar imediatamente.

E isto leva-nos a outro ponto.
Quem comanda um incêndio não é o comandante dos bombeiros locais, quando chega o comandante do distrito o bombeiro local passa a obedecer a esse comandante e não ao seu comandante e expliquem-me lá que lógica tem isto? Então quem conhece o terreno é "destituído" por quem não conhece? O incêndio passa a estar nas mãos de quem não sabe quais as florestas mais propicias a arder, quais as aldeias que mais precisam de ajuda, quais as estradas a cortar?
A pessoa mais qualificada para dar ordens deixa de ter poder de as dar. Alguém me explica o motivo disto? Desde quando graduação é sinal de informação?

Mas continuemos:
Há aldeias que começaram a arder às 9 da noite, expliquem-me porque é que estas aldeias não foram evacuadas? Expliquem-me porque é que 6 horas depois de um fogo destas dimensões começar, depois de se ver como estava completamente descontrolado, não se evacuaram as aldeias onde o fogo ainda não tinha chegado. Expliquem-me como se deixou esta gente entregue a si mesma.
Não entendo como não foram dadas ordens de evacuação, eu não ouvi falar de uma única aldeia em Pedrogão que tenha sido mandada evacuar antes das chamas chegarem. Nem uma...
Expliquem-me porque não existem planos de evacuação pré-definidos, porque não existe já montado um sistema a ser usado em caso de emergência e não falo só em Pedrogão mas sim em todos os sítios que são maioritariamente constituídos por floresta.
Expliquem-me porque não existe um registo já feito das estradas que tem de ser imediatamente cortadas em caso de incêndio, das aldeias que em termos populacionais são mais vulneráveis (aldeias mais envelhecidas) e que por isso tem de ser imediatamente evacuadas. Não é algo difícil de fazer, basta que se percam uns dias de aldeia em aldeia a saber quem lá vive, quantos habitantes são, que idades tem, quantos conduzem, quantos conseguiriam sair pelo seu pé em caso de catástrofe. Tudo isto já devia estar feito, previamente feito, para que quando se chegasse ao terreno de fogo ser só colocar o plano em prática. "tu, tu e tu vão cortar as estradas y, vocês vão evacuar as aldeias z", sem ser preciso pensar muito e acima de tudo sem ser preciso perder tempo, tempo que se torna valioso quando o assunto é salvar vidas.

Mais, expliquem-me porque não existem ao longo das serras, florestas, aldeias etc, sítios onde os bombeiros possam reabastecer água, cada vez que um carro fica sem água ele tem de abandonar o terreno? - e por favor digam-me que estou errada, digam-me que eles não tem de abandonar a frente de combate para irem sabe-se lá onde abastecer colocando a própria vida em risco.
Quando a casa ao pé de mim começou a arder, os bombeiros saíram da encosta sem água (podem ler do que falo aqui) e foram reabastecer, demorando cerca de 2h a voltar. Estas duas horas fizeram obviamente a casa começar a queimar inteira em vez de ser apenas o telhado da mesma a arder. Ou seja, se aqueles bombeiros tivessem uma boca de incêndio ali, teriam conseguido apagar aquele telhado antes do fogo consumir toda a casa e a casa do lado não teria ardido.
Da mesma forma se existissem sítios onde eles se pudessem abastecer ou usar directamente a água, não precisariam de cumprir as ordens que tanto irritam a população do "deixa arder e interfere só quando ameaçar casas" mas é claro que eles tem que deixar arder, porque se gastarem a agua a apagar a floresta, não vão ter água para depois apagarem o que se aproximar das casas. Terão de se ir embora para abastecer e a casa ficará sem protecção. Então tudo o que eles podem fazer é mesmo deixar arder e poupar a água para salvar a casa.
É ridículo? É, mas neste país parece que só não faltam ideias de como meter dinheiro ao bolso, de resto, ideias de como fazer as coisas melhorar, nunca aparecem...

Falemos agora das comunicações, a mim dá-me muita vontade de rir quando oiço que as falhas foram coisas de minutos. Dá-me para rir, fazer o quê?
Sei de um caso em que um GNR não sabia se podia ou não deixar passar por uma estrada porque estava à espera de "linha" para comunicar e obter a informação. Ora se este homem estivesse rodeado de chamas a pedir ajuda, como seria? Morreria enquanto esperava pela linha?? Isto é normal?
Ninguém pensou que o Siresp precisava de linhas exclusivas? Ninguém pensou que no caso de uma tragédia como esta as pessoas vão agarrar nos telemóveis para ligar de forma exaustiva seja para os meios de ajuda, seja para as próprias famílias e que isso vai sobrecarregar linhas?
Mas supondo que o Siresp até tem uma linha própria (que acho que não tem mas posso estar errada), ninguém pensou que existiram centenas de comunicações a serem feitas? Comunicações do 112 para eles, comunicações de gnr para gnr, de bombeiros para bombeiros, de protecção civil para protecção civil e depois entre as diferentes entidades? Ninguém achou que existiria uma sobrecarga de linha?
Cada vez que estes homens ficaram sem comunicações as suas vidas foram colocadas em risco, o que faria uma equipa de bombeiros de outra localidade se estivesse rodeada de chamas? Pediria ajuda a quem para sair dali se não tinham siresp nem telemóvel e não conheciam o terreno? Eu já nem estou a falar da população mas sim da vida das pessoas que se deslocaram propositadamente para lá para ajudar e que foram colocados em risco pela incompetência de um sistema que nos custou milhões e que quando mais foi preciso falhou.

E falando em comunicações tenho de falar da incompetência de quem atende as chamadas do 112, processem-me se quiserem (não, não processem que eu não tenho dinheiro para um advogado) mas não há outro nome para chamar a não ser incompetência, é que podia ser só eu a ter azar com as pessoas que apanho do outro lado da linha, mas não sou. Há uma falta de empatia por quem está do outro lado que é uma coisa ridícula de se ver, quem está a atender uma chamada de emergência tem de perceber que do outro lado está alguém em aflição, ninguém liga para o 112 se não precisar (tirando os parvos), ninguém liga para o 112 para fazer o atendente perder tempo, liga-se porque se precisa de ajuda. E quando se precisa de ajuda a pessoa espera obtê-la e não é isso que acontece muitas vezes no 112.
Já li que as pessoas do outro lado se deviam sentir sobrecarregadas pelo volume de chamadas e impotentes por não poderem fazer grande coisa, mas isso é motivo para responder mal a quem está cercado pelas chamas? Para ser ignorante com alguém que sabe lá se vai perder tudo ou não? Para desligar chamadas na cara de quem tem o fogo à frente? Não fui só eu que recebi respostas ridículas do 112 (mais uma vez podem ver do que falo aqui), houve quem fosse chamado de mal educado por exemplo, sim porque meus amores, as pessoas estão rodeadas de fogo, sem bombeiros e o atendente do 112 acha que a pessoa tem de ser politicamente correcta a pedir ajuda e que se não for lhe pode desligar o telefone na cara. Até os operadores de call center da Meo ouvem barbaridades sem desligarem o telefone mas os do 112 são sensíveis...
Não, amigos, não podem ser. Para se trabalhar no 112 há duas coisas que deviam ser obrigatórias, ser empático e não ser sensível. Não podemos esperar que as pessoas sejam politicamente correctas em momentos de aflição. Eu sou uma pessoa calma, que transmito todas as informações pedidas sem pestanejar e não digo asneiras, eu sou objectiva e mais pardais ao ninho e mesmo assim oiço coisas ridículas. Agora imaginem uma pessoa nervosa, que quando está em pânico solta uns alhos e bugalhos a ligar para o 112 porque está rodeada de chamas. Vocês acham que esta pessoa vai ser politicamente correcta? Não vai porque não consegue, porque está a ver o trabalho de uma vida a ponto de ser destruído e do outro lado estão a ser arrogantes e a desvalorizar o sofrimento e a aflição dela. Isto não pode acontecer, nunca, seja qual for a situação.
A pessoa que está do outro lado tem que - no mínimo - tentar acalmar a pessoa para obter informações claras e tem - no mínimo - que lhe passar a informação de que tudo será feito para ajudar. Imaginem aquele caso da mulher que telefonou para o 911 a pedir uma pizza quando estava a ser vitima de violência doméstica em versão portuguesa. Não só não obtinha ajuda como ainda era ofendida e lhe desligavam o telefone na cara.
E isto não aconteceu porque era um dia de elevado número de chamadas no 112, isto acontece todos os dias, se nunca tiveram um mau atendimento no 112 são uns sortudos, mas perguntem aos vossos amigos e familiares e eu duvido que não oiçam histórias de deixar qualquer um de cabelos em pé. É urgente que se mudem as politicas de quem atende o 112 (sejam elas quais forem), é urgente que aquelas pessoas aprendam o que é a empatia.

Quase a terminar:
Quanto à protecção civil eu gostaria de saber qual é o critério de adesão (não vou dizer o óbvio porque posso ser processada e eu já disse que não tenho dinheiro para o advogado), porque não me parece possível que alguém da mesma responda que não conhece a aldeia de onde se pede ajuda para evacuar, ou se responda que determinada aldeia não é prioritária. Quer dizer a aldeia está rodeada de fogo, há crianças a precisar de evacuação, há idosos sem mobilidade mas a aldeia não é prioritária.
A minha pergunta é só uma, houve alguma aldeia prioritária em Pedrogão? É que eu acho que não.

E por fim:
Quantas pessoas morreram neste incêndio? A pergunta não é retórica, responda-me o primeiro ministro, a ministra da administração interna, o chefe da protecção civil, qualquer um deles, quantas pessoas morreram neste incêndio? E não, não me digam que foram 64 porque quem esteve no terreno sabe que não foram, perguntem meus amigos a qualquer bombeiro que conheçam e tenha estado no terreno quantas pessoas morreram neste incêndio e vão ficar de queixo caído com a resposta.
Deixaram de actualizar o número de mortos quando as criticas se tornaram demasiadas, quando a desculpa de que não falhou nada deixou de colar. Se não falhou nada e morreu tanta gente, imaginemos o que teria acontecido se tivesse falhado.
Vai existir um relatório, relatório esse que supostamente terá de ser publico. Eu vou esperar para ver quantos mortos aparecerão lá, quantas famílias perderam realmente os seus, quantos nomes ficaram esquecidos porque não convinha mencionar a real dimensão da tragédia.

Eu não quero que ninguém se demita das suas funções pelos erros que custaram tantas vidas, não, eu quero é que o desespero que senti naquele dia sirva para que os outros aprendam alguma coisa. Eu espero que as pessoas que hoje choram porque perderam alguém amanhã não sejam outras.
Eu quero que se deixem de merdas e comecem a ser competentes no vosso trabalho, eu quero que se deixem de desculpas e se coloque a força aérea a combater incêndios e não me venham dizer que o investimento é alto e os custos de manutenção são caros, aprendam a fazer contas a longo prazo e não a curto. Pagasse mais de 30 mil euros à hora , vou repetir, 30 MIL EUROS À HORA, aos aviões que combatem incêndios, vão me dizer que o valor que gastamos em meia dúzia de anos não rende o investimento? Os nossos pilotos são dos mais competentes do mundo, deixem-se de desculpas da treta e comecem a investir no que tem de ser feito. Temos condições, temos meios e temos necessidade. Então deixem os interesses privados de lado e coloquem os do país em primeiro lugar que foi por isso que foram eleitos.
Façam leis severas para quem deliberadamente incendeia as florestas, investiguem as coisas a fundo, não apenas de quem queimou mas de quem mandou queimar, façam a pena tão pesada que até os pirómanos pensem duas vezes antes de cometer o crime quanto mais os que o fazem apenas pelo dinheiro.
Incendiar uma floresta é um crime ambiental, é um crime contra o património publico e muitas vezes privado, é ofensa à integridade física de todos os que o combatem, é homicídio por negligencia e homicídio premeditado em muitos dos casos e mesmo assim os tipos saem soltos com termos de identidade e residência, com pulseiras electrónicas, com penas suspensas. Que merda (eu juro que não digo asneiras, mas não há outro termo a aplicar) de lei é esta? Quando é que começamos a fazer leis justas neste país? Destrói-se a vida de quem perdeu tudo e sai-se impune? (neste país sim, olhemos para o Salgado).
Comecem a fazer cumprir as leis que já existem, não conheço UMA estrada na minha aldeia que tenha as árvores a 10 metros de distância, digam-me vocês quantas estradas conhecem com árvores a 10 metros em zonas florestais...
Limpem os terrenos que vos pertencem, as florestas que são vossas, metam os presos a fazer o trabalho, eles até ganham mais que os bombeiros..
Criem formas dos terrenos abandonados serem limpos - façam inventários do que existe neste país. Façam com que os idosos que já não tem forças para pegar numa enxada tenham ajuda para limparem os próprios terrenos.
Deixem-se de por os milhões dos eucaliptos ao bolso e criem zonas reservadas para serem cultivados, obriguem a que sejam delimitados por sobreiros, carvalhos e aquelas árvores que supostamente são mais resistentes ao fogo.
Criem planos de evacuações de aldeias, aqueles de que falei em cima e não vou repetir.
E olhem para os bombeiros, durante todo o ano e não apenas quando morrem. Não lhes serve de nada terem o governo inteiro no funeral, serve-lhes é que durante o ano sejam criadas condições para que trabalhem em segurança. Criem caminhos nas florestas para que tenham acessos seguros, instalem as bocas de incêndio para que mesmo que fiquem sem água possam trabalhar, criem sistemas de comunicação que não falhem e olhem bem para o ridículo que é pagar 1.87€ a um bombeiro, foram eles os únicos que não falharam neste incêndio, foram eles que mais uma vez saíram de casa sem saber se voltariam para socorrer os outros, muitos andaram a combater sem saberem se os seus estavam seguros. Pagamos 1.87€ por hora a um bombeiro que arrisca a vida por estranhos e depois pagamos 90.000 de reforma a quem pelo contrário destruiu a vida de milhares de pessoas. Só neste país.. Só mesmo neste país..

E podia escrever mais.. muito mais.. Mas fiquemos por aqui!


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