sexta-feira, 23 de junho de 2017

O pior dia da minha vida .. O inferno das chamas.

17 de Junho de 2017 - Sábado

São 10 horas da manhã e a minha cadela obriga-me a levantar, na rua o calor é imenso e as minhas pequenas em vez de um bom dia perguntam-me se já podem ir para a piscina insuflável que o avô encheu para elas no quintal.
Sim já podem, fico a vigiar enquanto tomo o pequeno almoço e me deito na espreguiçadeira a apanhar sol.
Um dia normal, um calor anormal.
Por volta do meio dia obrigo-as a contra gosto a irem para casa, o calor é insuportável até à sombra.

Passam das 16 horas quando volto a olhar para o relógio para ver se a hora de perigo do sol já passou, sim supostamente já passou. Assim que meto os pés no quintal reparo num céu escuro e cheio de fumo, chamo o meu pai "acho que há fogo" e saio do quintal enquanto ele vai procurar noticias na televisão e falar com a minha mãe.

Na rua sem sombras o calor é ainda mais intenso, a minha vizinha anda de um lado para o outro para perceber de onde vem o fumo, vamos à rua de trás e conseguimos ver 3 pontos de fumo. Apenas isso, 3 pontos de fumo que a mim me parecem longe, muito longe.

Ainda não são 17 horas e já não é só a encosta traseira que arde ao longe, quando saio de casa depois de ter trocado o bikini por um soutien de desporto para ir ver se o céu tinha clareado o suficiente para ir dar o meu passeio pela floresta, a minha mãe grita-me que na encosta lateral já se vêem as chamas. Chamas? Quais chamas? Eu que não vejo nada ao longe continuo a ver apenas pontos de fumo. Mas já não são pontos de fumo nas encostas traseiras, são pontos de fumo nas encostas de trás e na lateral direita. Digo-lhe que ligue para a vizinha da encosta da frente e lhe pergunte, do sitio dela deve-se ver melhor.
O meu pai ouve que o fogo se dirige para as Fontainhas, são 3 km até minha casa, na minha cabeça continua tudo a estar muito longe, é muita floresta não pode arder tudo. Ele e os meus vizinhos decidem ir até ao centro da aldeia, tentar perceber afinal onde está realmente o fogo.
A vizinha da encosta da frente diz ao telefone que também ela vê as chamas, diz-nos que comecemos a molhar tudo.
E eu começo, começo com a despreocupação de quem nunca pensou que o fogo ali chegaria, com a calma de quem vê sempre o lado bom das coisas e acha que estão apenas a exagerar, com uns chinelos nos pés, uns calções de ganga e um top vestido. Começo a molhar o quintal, com a mangueira onde ela chega e com baldes onde ela não chega.
A minha mãe começa a ficar assustada, o medo de quem já passou por fogos que eu apenas vi na televisão, mando-a ligar ao meu pai e ficar em casa com as crianças, grito que fechem a minha cadela.  A urgência na minha voz contrasta com a calma que sinto por dentro, "é só um susto, ele não vai chegar aqui", continuo a pensar.
E de repente as fagulhas começam a cair no meu quintal, de repente é real e eu sei que vai acontecer, começo a apagá-las, o mais rápido que consigo, não as posso deixar pegar.
O meu pai chega, enquanto eu apago as fagulhas com os baldes ele engata as mangueiras para que cheguem a todo o terreno e assume o quintal.
Assim que ele pega na mangueira eu deixo de ter água para ajudar ali.

Entro em casa e informo que preciso de panos molhados, o quintal está a arder e o fumo começa a tornar-se insustentável, é preciso continuar a respirar. Entrego uma toalha molhada ao meu pai e passo para a frente da casa.

Dentro de casa a minha mãe começa a ligar para onde pode, pede à protecção civil que lhe venham buscar as netas, na primeira vez dizem-lhe que sim, que vão já enviar alguém. Foi a única vez que o fizeram, de todas as outras vezes as respostas foram as mais descabidas possíveis.
Começa também a ligar para as minhas irmãs, só consegue falar com uma, e para a minha avó. Inicialmente calma, pedia apenas que tentassem entrar em contacto com a gnr para que fossem buscar as crianças.

Na frente da casa descubro que estamos cercados, completamente cercados, todas as nossas encostas ardem, é urgente fazer alguma coisa, tenho os meus para salvar.
A casa ao lado da minha - e que é colada na minha - tem mato à frente que começa a arder - é uma casa penhorada e a entidade que a penhorou nunca se deu ao trabalho de ir limpar o terreno.
Começamos a apagar, eu e a Paula - que é a namorada do Bruno, que por sua vez é meu vizinho - e estava lá por milagre nesse dia - atiramos baldes de água sem nem sequer sabermos se estamos a atirar para o sitio certo, o muro da casa não nos deixa ver nada. Ela pontapeia o portão, mas ele nem se mexe, atiramos a agua por cima do muro.
Olho para a minha videira - a única que sobreviveu - e reparo que as folhas pendem para o quintal do lado, não posso deixar que o fogo chegue ali. Molho o muro por dentro e por fora, pego na mangueira mas descubro que se a usar tiro a pressão da água ao meu pai, terei de usar os baldes.

Ao pé do meu carro algo começa a arder, não dou por nada, apenas a mãe da Paula se apercebe e consegue apagar, salvou-me o carro e o da filha, nós só soubemos no fim.

No terreno do lado existe um carro (penhorado e que lá ficou a apodrecer), o pai da Paula usa uma mangueira ligada ao vizinho para molhar à volta, aquele carro não pode pegar, se explodir arde tudo.
Noutro lado o meu vizinho e o Bruno combatem com mangueiras o terreno lateral, para que não chegue à casa deles, para que não mate os animais.
Quando controlam esse terreno correm para nós, eu e a Paula continuamos a atirar água pelo muro, nem sabemos muito bem para onde. Vou buscar uma escada que o vizinho usa para subir para o muro, começamos a passar-lhe os baldes, ele atira a água para os sítios certos.
Finalmente também aqui está seguro.

A minha mãe continua em casa, fechada com as crianças e a cadela, num desespero profundo de quem tem as netas para salvar mas não pode fazer nada a não ser esperar que os seus o consigam fazer. Foi - na minha opinião - quem viveu a parte mais difícil deste incêndio, a de olhar para as crianças e não saber o que fazer, a de ouvir os gritos de quem está cá fora e só perceber metade, a de quem deixa de ver o marido e a filha e não sabe se estão bem ou se já lhes aconteceu alguma coisa.
Liga para a minha irmã e pede-lhe desculpa por não lhe salvar as filhas, liga para a minha tia e suplica que alguém lhe tire as netas dali, liga para a minha avó e o desespero consome-lhe a alma.

Corro para o quintal de trás para ver do meu pai, vejo o quintal queimado, começa a estar tudo queimado no meu quintal, mas ele está a aguentar-se, está a conseguir evitar que as chamas cheguem à casa. Entro em casa apenas para dizer que estamos bem, estamos a conseguir.

Corro de volta à frente da casa, o quintal "abandonado" ao lado da minha casa arde e é preciso apaga-lo, continuo de chinelos. Corro com baldes e vou apagando o que posso apagar, o pai da Paula continua com a mangueira, a Paula, o meu vizinho e o Bruno vão para outra encosta tentar salvar a casa dos pais da minha vizinha.
Nós continuamos ali, estou encharcada, umas vezes porque durante as corridas com os baldes a agua saltava, outras porque tive realmente que despejar agua em cima para continuar a hidratar os olhos, para continuar a ver alguma coisa, o fumo é sempre muito intenso, há alturas em que não consigo ver os meus pés.
Corro pelo quintal vizinho e sinto os pés queimar, umas vezes porque torci os pés e outras porque simplesmente perdi os chinelos no meio das corridas, passei em cima de tábuas a arder e tenho a certeza que tenho os pés queimados. Mas também tenho a certeza que não morrerei ali, senti sempre durante todo o tempo que o incêndio durou que não estava sozinha, talvez os outros não entendam, mas no meu ombro senti sempre a mão de Deus, eu não combati sozinha, Deus esteve ali o tempo todo.
Os calções estão demasiado pesados e começam a cair-me, não consigo correr com eles, preciso de os trocar e corro para casa, é ai que me apercebo que já não temos luz, visto umas bermudas que acho no meio da pressa, mas não tenho tempo de procurar os ténis, de me sentar para os calçar.
Saio de casa e a minha mãe grita-me qualquer coisa, digo que não posso parar, tenho a certeza que tenho os pés queimados e se parar talvez não consiga continuar, manda-me calçar uns ténis por amor de Deus, digo que não tenho tempo enquanto encho mais um balde na piscina das miúdas, corro de volta ao terreno. Na próxima vez que corro para encher um balde entrega-me uns crocs, uns daqueles de inverno com pelo por dentro, assim que os calço sinto os pés arderem, penso para comigo que é o calor em cima das queimaduras e continuo, continuo sempre.

São quase 8 da noite, ou talvez tenha passado um pouco já.
Não temos luz, nem água, nem rede no telemóvel mas apagamos o incêndio à nossa volta. A casa já não está em perigo, o quintal de trás e de lado estão apagados,conseguimos apagar tudo antes de nos faltar a água e ainda tivemos tempo de apagar as oliveiras de uma outra vizinha.

A minha mãe pode finalmente sair de casa, as minhas sobrinhas podem voltar cá fora.
Assim que a minha mãe realmente percebe que o perigo imediato passou e que estamos vivos todos vivos, volta a assumir o controlo da situação, volta a liderar como sempre fez ao longo da minha vida.

Quando olho à minha volta percebo que as nossas encostas continuam todas a arder, a minha vizinha da encosta da frente está a conseguir salvar a casa mas atrás dela já outras arderam, não há uma encosta que não arda.
Há uma que me preocupa especialmente, parece-me demasiado perto de pegar num terreno perto do nosso, o meu pai diz-me que é longe, hoje sei que não é.
Olho para a encosta de trás e a minha vizinha diz que a casa de não sei quem está a arder, não sei quem é a senhora, mas estou a olhar para a casa quando a mesma rebenta numa bola de fogo, o gás explodiu e levou a casa com ele, apetece-me chorar profundamente por aquela pessoa que perdeu tudo. Nesta altura não tenho noção da dimensão da tragédia, de quantas vezes me apeteceria chorar por quem perdeu tudo. Mas na altura não choro, não choro porque não posso, há uma situação a resolver e chorar não a resolve.
Não há rede nos telemóveis, apenas o telefone de casa da minha vizinha funciona, não sei que raio de rede aquilo apanha mas teve sempre rede. Digo à minha mãe que avise a minha irmã que estamos bem, diz-me que não é capaz, agarro no telefone e percebo pela primeira vez que estou a tremer, ninguém viu, eu não disse a ninguém.

Telefono à minha irmã, digo que estamos bem e já não estamos em perigo, diz-me que lhe tire as filhas dali, mas não posso porque as estradas estão cortadas, por ela tínhamos saído, mal sabia ela que se o tivéssemos feito seriamos mais um numero na estatística da estrada.
As minhas sobrinhas não tem uma noção real do que aconteceu, observam o fogo ao longe sem terem noção de que ele já esteve tão perto.

Vou ao meu quintal e choro, choro sem que ninguém veja. Está tudo queimado, mal sabia eu o quanto ainda estaria queimado... Mas não há tempo para isto, não há tempo para chorar. Limpo as lágrimas e regresso, sou de novo a pessoa calma e forte que todos conhecem, estou de novo pronta a acalmar e a resolver situações.

Vemos uma ambulância do inem na encosta, algum tempo depois vemos bombeiros, não estão ao pé de nós estão nas encostas, não importa, são as nossas encostas e é um alivio tremendo vê-los lá.

O Bruno, a Paula e o meu vizinho voltam, os bombeiros assumiram e eles não tem água, não podem fazer mais nada. A casa que foram salvar não ardeu, conseguiram mais uma vez.

Vou por os pés em água, convencida de que os tenho queimados, não queria parar e fazê-lo mas a minha mãe não me deu hipóteses, meto-os na água e começo à procura das bolhas, das queimaduras do que quer que seja, mas não está lá nada, os meus pés estão pretos sim (tão pretos que demoraram mais do que um banho a voltar à cor normal), mas não tenho uma queimadura que seja, uma única bolha. Sorri, pela primeira vez no meio daquela loucura sorri. Eu sabia que Deus tinha estado sempre comigo, mas isto, isto é ainda mais do que eu estava à espera.

Não temos água mas os bombeiros estão na encosta, pensamos que podemos respirar fundo mas não dura muito tempo, o telhado de uma casa no inicio da nossa rua começa a arder, parece-nos estar mesmo no inicio e tentamos ir lá com escadas e baldes, mas assim que o meu vizinho sobe as escadas descobre que o mesmo já está todo a queimar por dentro. Precisamos dos bombeiros.

O Bruno corre à encosta a chamá-los, mas já não tem água, vão abastecer e só depois podem voltar.

De Lisboa saíram tios e primos que se meteram à estrada para tentarem vir buscar as minhas miúdas.
Vamos tendo noticias por mensagens que chegam de tempos a tempos quando a rede o permite, respondemos sabendo que as respostas demorarão a chegar. Dizemos que estamos bem, mas eles que tem televisão não acreditam, todos acharam que mentíamos.

Passam das 10 da noite, as meninas deitam-se no sofá para que possam dormir enquanto esperam que supostamente alguém as venha buscar, sou sincera, não acredito que alguém apareça, as estradas estão cortadas e desde as 17 horas que é suposto que alguém responsável pelas evacuações venha.

De vez em quando vou ao quintal, vejo as luzes dos bombeiros junto da casa que arde mas não tenho noção do que lá se passa, no entanto confio neles, se eles estão ali então está tudo seguro.

À meia noite a rede dá uma trégua e recebo mensagens, uma das minhas irmãs diz que minto e que vamos morrer todos e eu não quero dizer, a outra suplica-me que me meta à estrada porque já há 17 mortos, a mim apetece-me dizer-lhes que deixem de ser histéricas mas talvez também eu fosse histérica se estivesse a não sei quantos km impotente sem saber como salvar os meus.

À uma da manhã vou ver o que se passa na casa que arde, os bombeiros já saíram, foram chamados para outro lado e deixaram a casa em fogo baixo, subo os degraus de tijolo e espreito para dentro da casa, o fogo está longe de estar baixo, não vai demorar muito a voltar a pegar tudo.
São 1.08 da manhã quando ligo pela primeira vez para o 112, desde as 17h que combatemos incêndio e esta é a primeira vez que lhes ligo, a resposta que tenho é que se não estão lá meios é porque não há meios, explico que existe uma floresta atrás que ainda não ardeu e que se arder não teremos como travá-la, respondem-me que já muita gente perdeu a casa e até a vida e desligam-me o telefone.
Foi assim a noite toda, com pedidos de suplicas que não foram ouvidas, tenho a certeza que muitos dos nossos telefonemas não foram sequer passado a um comandante. Nenhum bombeiro de incêndio voltou ao local.

Desde as 23h que os meus tios e prima estão em Pedrogão Grande no posto de comando, mas não os deixam passar, desde essa hora que pedem ajuda para que alguém tire as minhas sobrinhas do local. Há 1h30 da manhã os bombeiros de Maceira assumem o risco e com a minha tia na ambulância a indicar o caminho, deslocam-se ao local. Ás 2h as minhas sobrinhas e a minha cadela são evacuadas, que aventura que elas acreditam ter vivido, andaram de ambulância e ainda levaram o cão. Os amigos nem vão acreditar. Como a inocência das crianças é maravilhosa. Quase às 5 chegam a Lisboa.

Quando foram buscar as crianças pedimos a uma outra ambulância ajuda para a casa que ardia, disse-nos que ia informar o comandante, não sei se o fez ou se no meio de alguma outra ocorrência se esqueceu mas a verdade é que ficámos ali, sentados à espera que eles chegassem.
De vez em quando parecia que ia chover, mas nunca chovia de verdade. E ali ficámos nós 5 gatos pingados a olhar para uma casa a arder (o meu vizinho, a Paula e os pais tinham ido combater o incêndio perto da própria casa) enquanto acompanhávamos as fagulhas e rezávamos para que se apagassem no ar sem chegarem nunca aos nossos telhados.

Às 3 da manhã começamos a ouvir pequenas explosões, inicialmente pareciam-nos vir da casa a arder, mas não conseguíamos imaginar o que ainda haveria ali para explodir, quando fomos investigar descobrimos que não era ali, a casa colada a essa estava a arder. É uma casa que estava a ser recuperada e que na sua recuperação foram usados materiais bastante inflamáveis, madeiras, espumas, esferovite. Ligámos 112, suplicámos que entendessem mas não vinham. não ouviam, não queriam saber, desligaram várias vezes o telefone.

Às 4 da manhã comecei a sentir o coração na boca e aquele aperto de quem não consegue respirar, não me podia dar ao luxo de falhar, não ali, não agora, fui até minha casa e ai fiquei no sofá, a respirar fundo, a tentar regular o ritmo cardíaco. A minha mãe foi ver de mim, queria por que queria chamar uma ambulância, recusei, disse-me que se chamássemos uma ambulância talvez viesse um carro de incêndio também, acedi.

Comecei a pensar no que fazer se tivesse que sair dali, sabia que tinha o coração a rebentar, que era só ansiedade mas não conseguia regular nada, o sentimento de impotência é o pior sentimento do mundo.
Se saísse tinha de levar a minha vizinha comigo, ela era a única que não entendia que se o fogo chegasse aos pinheiros não poderíamos fazer nada a não ser fugir. Obriguei o meu pai a deixar o carro preparado para uma fuga e comecei a respirar, mas não adiantava, o nó nos pulmões não desaparecia, como se o ar nunca fosse suficiente.

Fui com a minha vizinha e o Bruno ao inicio da aldeia, talvez algum carro dos bombeiros estivesse ali e pudesse acudir as casas, não se via ninguém, parecia uma aldeia fantasma. Ao inicio da vila vimos algumas pessoas a regressar, iam contando o que tinham visto e sabiam, nem sequer sei de onde vinham.

A ambulância parou ao meu lado a perguntar se sabia onde era a minha própria rua, mandei-os para lá, sabia que estavam ali por minha causa, mas precisava que vissem o que ardia, precisava que talvez eles pedissem ajuda.

Comecei nesta altura a racionalizar como levar a minha vizinha comigo, começámos a regressar a casa e a ambulância voltou, parou já sabiam que era por mim que estavam ali,  Mandei o Bruno de volta a casa e pedi à vizinha que ficasse comigo, na avaliação o bombeiro não entendeu muito bem como é que eu estava a andar e a falar, o ritmo cardíaco estava muito mas muito acima do normal, perguntou-me se era desportista, não sou, mas dizem que tenho um bom coração, talvez isso suporte um elevado ritmo cardíaco.
Fui levada para o posto médico, não sem antes ter um ataque de choro por ter de deixar os meus pais ali, nem sem antes os fazer jurar a pés juntos que sairiam se o fogo chegasse aos pinheiros. Nunca chegou.
E ali ficaram eles até às 6 da manhã a olhar para duas casas a arder, até a combustão das mesmas começar a diminuir lentamente.

No posto, recebi medicação, oxigénio, descobri que a pele das minhas costas tinha saltado e comecei a ouvir as histórias terríveis, longe muito longe de imaginar a tragédia que seria revelada com o nascer do dia.
Lá pelas 5 e tal da manhã fomos para a santa casa, dormir um pouco diziam eles, ninguém dormiu, ninguém conseguia tirar da cabeça as imagens que viveu, ninguém conseguia ficar sem saber dos seus. Passei o tempo a enviar mensagens para a minha mãe, a ligar para o numero da vizinha (e que eu a obriguei a deixar com o Bruno) que magicamente sempre tinha rede, sempre sem saber se me diziam a verdade ou se me mentiam para acalmar.
Aqui ouvi duas histórias que nunca mais me sairão da cabeça, não são minhas e por isso não as contarei, mas sempre que penso nelas, relembro-me a sorte que tive e tenho.
Passaram por lá psicólogos mas ainda não havia muito a fazer, ninguém ainda tinha interiorizado a tragédia que tinha acontecido.

As 8 da manhã o meu pai foi-me buscar, no caminho fui percebendo que tudo estava queimado, não havia floresta, nenhuma floresta.
Já em casa fui às casas vizinhas procurar animais feridos, não achei, apenas esfomeados, alimentei-os.
Comecei então a racionalizar que precisava de sair, tinha de voltar a Lisboa antes que cortassem outra vez as estradas.
Eram 9 da manhã, estava novamente um calor horrível  e eu sabia, sabia dentro de mim que o fogo ainda não tinha consumido tudo o que tinha para consumir, não imaginei que ainda hoje estaria activo, mas sabia que não seria no domingo que ele seria apagado.

Saímos às 11 e tal de lá, com um aperto no peito de deixar os vizinhos mas a certeza que se não saíssemos naquela altura, ou não saiamos mais naquele dia ou seriamos apanhados pelas chamas em alguma parte do caminho.

Fiquei sem videiras, sem árvores de fruto, sem oliveiras, sem a cerca do quintal que não será reposta num mês, em dois e se calhar nem sequer num ano, fiquei sem as amoras que comia enquanto corria na floresta, fiquei sem a floresta que me acolhia sempre que me apetecia.
Mas estou viva, estamos vivos, salvamos a casa e tudo isto é mais do que muitos podem dizer.

Perguntam-me muitas vezes como me sinto, este é o melhor exemplo que vos posso dar.
Na terça feira olhei para as moedas que tinha na carteira e pensei: "não preciso de por o euro milhões, eu já ganhei o euro milhões"
É assim que me sinto... Sortuda e muito muito abençoada.

Obrigada meu Deus! Por tudo.. Sempre...



5 comentários:

  1. Não conseguimos imaginar o que vocês passaram. Ao ler todo o teu relato, da-nos um aperto no peito só de imaginar, mas sabemos que estamos longe de saber realmente o que é viver uma situação dessas.
    Ainda bem que estão todos bem!

    Beijinhos**
    _________________________
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  2. Começámos a ler o texto em silêncio... e em silêncio acabámos. Lemos num estado sôfrego, com arrepios e lágrimas que teimaram em escorrer pela face.
    Muita força seria o que desejaríamos, mas já lemos a força que há em ti. Muito, muito obrigado por esta partilha que é um abre-olhos necessário.
    Qualquer coisa em que possamos ajudar, conta connosco. Isto é mesmo sentido. A sério! Continua a grande mulher corajosa que és! És um exemplo de vida! Tu e os teus... Muita coragem!

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  3. Armanda...amei o seu relato. Desejo-lhe muita força 💪💪💪

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  4. esta tragédia abalou toda a gente... muita coragem e força para voces que viveram tudo isto de perto, de demasiado perto!

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